Significado e propósito da vida e da morte

“Se você viver bem, jamais terá de se preocupar com a morte, mesmo que lhe reste um único dia de vida.  (…) Viver bem significa, basicamente, aprender a amar.” (Kübler-Ross – 2003 – p.29).

Quando a morte está presente na televisão, nos noticiários, nos jornais, na rua, diante de nossos próprios olhos, somos até que bastante racionais e indiferentes. Podemos facilmente resolver os problemas da morte do outro, mas quando a morte bate em nossa porta, aí todo panorama é alterado. É nesse momento, que percebemos o quanto estamos carentes de aprendizado sobre a morte. Descobrimos o quanto estamos despreparados para enfrentar nossos próprios problemas com relação à morte.  

Definitivamente, o mundo ocidental não nos ensina a morrer e não nos ensina nada sobre como lidar com a morte. Precisamos viver nossos dias em busca de realizações objetivas: produzir, fazer, ter cada vez mais; uma corrida frenética em busca de uma felicidade material. Vivemos nossos dias como se nunca fôssemos morrer, nem pensamos na morte. Assim, não aprendemos, também, a viver de forma plena.

Qual é o sentido de nossa existência na Terra? Estamos aqui, numa corrida maluca para realizar, produzir e consumir? Estamos fugindo de nós mesmos e não chegamos a compreender quem somos e para que vivemos. As preocupações materiais nos absorvem, o lazer, a busca incessante de prazer; o ter acaba sendo nossa prioridade, deixamos de Ser, nos enganamos e nos iludimos. Quando somos confrontados com a iminência da morte perguntamos: “o que fizemos de nossa vida?” 

O ser humano na iminência de sua morte sente o desejo de ir ao encontro de si próprio, de realizar-se plenamente. Nesse momento, ele procura a aproximação de sua verdade mais profunda, deseja Ser. Nesse caso, é um desejo espiritual. Ele não é apenas um corpo doente, mas uma pessoa com sua história, sua intimidade, seus segredos.

Se os acompanhantes de um moribundo o estimarem, respeitarem todo seu invisível, se confiarem na força interior que está em ação dentro dele, pode-se dizer que, nesse acompanhamento, integram a dimensão espiritual.

“Se você aceitar a vida como algo para o qual foi criado, não se questionará mais sobre quem deveria viver mais ou quem deveria viver menos. Ninguém cogitaria de fazer a eutanásia em alguém, a fim de encurtar-lhe a vida, se tivesse esse entendimento.” (Kübler-Ross – 2003 – p.22).

O ser humano sempre abominou a morte e provavelmente sempre a abominará. A morte ainda é um acontecimento horrível, pavoroso, um medo universal, mesmo sabendo que podemos dominá-lo em vários níveis.

Hoje, o morrer é muito triste sob vários aspectos, muito solitário, mecânico e desumano. A pessoa é removida de seu ambiente familiar e levada às pressas para uma sala de emergência, com som estridente de sirene, corrida desenfreada, enfim com muito desconforto. Em geral, quando a pessoa está gravemente enferma não tem mais o direito a opinar, esquecemos de que ela tem sentimentos, desejos, opiniões e, acima de tudo, o direito de ser ouvida. Lentamente, começa a ser tratada como objeto. Deixou de ser uma pessoa. E, se tentar reagir, logo lhe darão um sedativo e é levada para a sala cirúrgica onde se transforma em um objeto de grande preocupação e grande investimento financeiro. O mais importante é salvar-lhe a vida. Nos dias de hoje, o paciente está sofrendo mais emocionalmente.

Há cinco estágios que podemos atravessar, quando sabemos sobre uma doença terminal, ou temos algum problema grave.

Primeiro estágio:   Negação e isolamento

Geralmente, a negação é uma defesa inicial, sendo depois substituída por uma aceitação parcial.

Segundo estágio: a raiva

Quando já não se consegue manter firme a negação, ela é substituída por sentimentos de raiva, de revolta, de inveja e de ressentimento. É importante saber ouvir a pessoa doente, suportar a raiva irracional, sabendo que o alívio proveniente do fato de tê-la externado contribuirá para melhor aceitar as horas finais.

Terceiro estágio:  barganha

É uma tentativa de adiamento. Psicologicamente, as promessas podem estar associadas a uma culpa profunda. As observações do moribundo devem ser consideradas, sob a ótica de se descobrir o motivo de tal culpa, e se existem desejos hostis mais profundos e inconscientes que aceleram tais culpas.

Quarto estágio: depressão

Quando a doença não pode mais ser negada e a pessoa é submetida a novos tratamentos ou cirurgias, sua revolta e raiva cederão lugar a um sentimento de grande perda. Essa perda envolve vários fatores: imagem pessoal, encargos financeiros, emprego, etc.

Há dois tipos de depressão, uma depressão reativa e a segunda, uma depressão preparatória em que a pessoa é obrigada a se submeter para se preparar, para quando tiver de deixar esse mundo. A primeira, quando os problemas vitais são cuidados, acaba rapidamente. O segundo tipo de depressão, ao invés de se dar com uma perda passada, leva-se em conta perdas iminentes. Nossa reação é animar essas pessoas que estão tristes, para não encararem os fatos a ferro e fogo. Geralmente essa reação é produto de nossa própria incapacidade de suportar, por muito tempo uma fisionomia amuada. Se deixarmos que a pessoa exteriorize sua tristeza, aceitará mais facilmente a situação e ficará agradecida aos que puderem estar com ela, nesse estado de depressão, sem repetir constantemente que não fique triste.

Quinto estágio: aceitação

Quando uma pessoa puder externar seus sentimentos, sua inveja pelos vivos e sadios e sua raiva por aqueles que não são obrigados a enfrentar a morte tão cedo, e tiver recebido alguma ajuda, não mais sentirá depressão, nem raiva, quanto a sua morte iminente. Sentirá, também, necessidade de cochilar, de dormir com frequência e com intervalos curtos. Nesse estágio, a dor acalmou, a luta cessou e chegou o momento de descanso para a grande viagem. Esse é, também, um período em que a família geralmente precisa de ajuda, compreensão e apoio.

Simbolicamente, a morte é como mudar de uma moradia para outra mais bonita. Quando o corpo não tem mais condições de sustentar a vida – seja por suicídio, assassinato, ataque cardíaco ou qualquer enfermidade crônica, não há importância como tenha acontecido, o corpo liberará a sua alma.

Inconscientemente, sabemos que a morte não existe sob o ponto de vista de nossa essência, nosso Espírito. A morte é apenas o abandono do corpo físico, como se fosse uma roupa velha.

A morte é uma transição para um estado de consciência mais amplo, no qual você continua a perceber, a entender, a sorrir e pode continuar se desenvolvendo. A única coisa que perdemos é algo que não nos serve mais: o corpo físico.

Cuida-se tanto do corpo físico e esquece-se da essência da vida, que é o espírito. Por isso que a grande maioria tem medo da morte, pois não consegue compreender que a morte não existe, enxerga apenas a vida do corpo físico, sob o ponto de vista material.

Para se tornar adultos sadios e equilibrados emocionalmente, para enfrentar com serenidade todas as fases da vida temporária, aqui na Terra, devemos ter o conhecimento sobre a vida e a morte desde a mais tenra idade.

Jean-Yves Leloup (1999) menciona que a espiritualidade é independente da experiência religiosa. Ela faz parte de todos os homens. A essência do ser humano é a espiritualidade. Todo homem é espiritual. Ser espiritual é dar um passo a mais.

Não é necessário ser religioso para perceber que não somos apenas matéria. Nosso objetivo é muito maior: evoluir, crescer e poder nos compreender. Compreender o verdadeiro sentido da vida, quem somos realmente, e ultrapassar todos os obstáculos, que se constituirão em grandes mestres, em potentes ensinamentos.

Anete L. Blefari
anete@sermelhorepleno.com.br
www.sermelhorepleno.com.br

Referência:

Blefari, Anete de Lourdes – Sobre a Morte e o Morrer – Trabalho de conclusão de curso de especialização em Psicologia Transpessoal – Instituto Brasileiro de Plenitude Humana – 2005



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