Compreenda sua infância e adolescência

A compreensão de si mesmo não tem como objetivo o bem-estar. Quando você se compreende, consegue compreender melhor o outro, principalmente, filhos e cônjuge, e como consequência dessa compreensão, adquire-se bem-estar.

Tudo em nossa vida acontece com um propósito, mas vemos a realidade de forma parcial, e portanto, não conseguimos compreender e aceitar os acontecimentos. Quando não conseguimos compreender o outro, é porque não compreendemos nossa própria realidade. Estamos distantes de nós mesmos.

Precisamos entrar em contato com aspectos inconscientes de nossa infância e de toda dinâmica familiar vivida, para ter uma compreensão completa de nossa história.

Quando a criança olha para a mãe e não o contrário, o que resulta em medo, solidão, desamparo e repressão da manifestação de suas necessidades e desejos, a dinâmica familiar está em desequilíbrio.  São os pais que devem olhar para a criança e estarem disponíveis. São os pais que devem cuidar do bem-estar da criança e não a criança ser responsável por eles.

A partir da realidade interna, podemos construir nossa história, investigar as experiências infantis, as necessidades de amor e proteção não atendidas e que foram enviadas à sombra. É raríssimo encontrar uma infância livre de sofrimento e de desamparo, por isso muitos adultos não se lembram dessa fase. O fato de que há pessoas que não se lembram da infância, por si só, já denuncia experiências terríveis, muitas vezes, devastadoras. Conscientemente, elas esquecem para se protegerem. O esquecimento é um mecanismo de proteção.

A criança cria uma personagem e assume mecanismos de sobrevivência para continuar vivendo, mesmo com a falta de amor. Essa personagem terá uma determinada história, com seu roteiro e um papel assumido. Uma pessoa pode ser introvertida em sua personalidade, mas simultaneamente madura e responsável no papel que assume, e se ocupa de todos. Outra introvertida poderá assumir o papel em criar fantasias, sem entrar em contato com o aqui e agora.

A personagem assumida não tem relação com a personalidade, mas sim com a infância vivida, com a mãe. Na dinâmica familiar, assumimos um papel para aceitar algum mecanismo de sobrevivência. Uma personagem assumida possui suas variações no jeito de fantasiar, de impor, de abusar, de adoecer e de manipular. A personagem assumida, quando não constatada, ordena o jogo e obriga outras pessoas de seu relacionamento a jogarem determinadas cartas e não outras.

A importância de investigar e compreender a infância

A infância é um período bastante crítico, porque a criança é vulnerável às capacidades e incapacidades dos adultos, tanto para amá-la quanto para destruí-la. O mais frequente, nessa fase, é encontrar abandono e abuso emocional.

Quando se investiga a infância de uma pessoa, em sua dimensão real, surgem as características de sua adolescência. A adolescência é como um segundo nascimento, e também deve ser investigada, porque é a consequência da infância.

Na adolescência, embora imatura, a pessoa já está mais forte fisicamente e mais preparada emocionalmente, para enfrentar e avaliar tudo que recebe dos adultos. Quando adulta, deve olhar para si mesma e não ficar culpando os outros por todos seus males.

O cenário que vivemos foi organizado por nós mesmos, com nossa própria contribuição. Mesmo que uma pessoa tenha vivido uma infância de desamparo, foi ela quem criou uma personagem para sua sobrevivência, o que lhe trouxe bons resultados. Portanto, na vida adulta, se não tiver essa compreensão, continuará com a mesma personagem e o mesmo papel. O cenário mudou, mas ela não.

O que fazer para compreender a si mesmo?

Primeiramente, deve-se investigar as experiências reais ocorridas durante a primeira infância, com honestidade e dedicação. O discurso de uma pessoa não é dela mesma. Há sempre alguém que a influenciou, com sua própria visão. Isso deve ser detectado por um profissional capacitado, pois foi assumido como sua identidade.

Em um mundo saudável, os pais apoiam, criam, amam e ajudam seus filhos. Não são os filhos que apoiam, facilitam, se responsabilizam e se preocupam com seus pais. Quando essa dinâmica está invertida, as futuras gerações assumirão o peso dessa disfunção.

O convite para cada pessoa é que observe seu cenário completo, veja-o externamente, com o propósito de construir sua história. Reveja seus preconceitos, dores, misérias e zonas escuras.

O propósito é devolver para a pessoa sua própria infância, seu lugar, seu merecimento de amor e seu valor. O objetivo é ter compaixão pela criança desamparada que foi, para compreender-se mais e sofrer menos.

Anete L. Blefari
anete@sermelhorepleno.com.br
www.sermelhorepleno.com.br

Referência:

GUTMAN, Laura – A BIOGRAFIA HUMANA – 2ª. Ed. – RJ – BestSeller, 2017

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